09 Janeiro 2013

Não é para tomar a sério

O Carlos Guimarães Pinto, em alguns dos seus últimos posts, tem estado a tentar compreender algumas das causas que levaram à situação actual em Portugal, e eu penso que ele está a apontar na boa direcção. Eu gostaria de contribuir, fazendo ressaltar o aspecto cultural. Não sem antes dizer que achei muito interessantes as observações que um especialista em turismo faz sobre Portugal e que ele cita no seu último post.
 
A primeira coisa que tenho para dizer é que não somos nós que possuímos a nossa própria cultura. É a cultura que nos possui a nós. E como não somos nós que a possuímos, é grande a dificuldade de a modificarmos. O melhor e a primeira coisa que devemos fazer é adaptarmo-nos a ela e, depois, procurar inovar dentro dela.
 
Os portugueses são trabalhadores muito disciplinados na Dinamarca, na Alemanha ou nos EUA porque o protestantismo espalhou o agnosticismo e o ateísmo por esses países, e neles não valem as convicções pessoais e íntimas. Um trabalhador português que experimente nesses países invocar o trânsito para chegar sistematicamente atrasado ao trabalho, a necessidade de interromper duas vezes o trabalho para tomar café ou fumar cigarros ("é que, sem dois cafés, não me consigo concentrar..."), ou invocar dores de cabeça para faltar ao trabalho ("sinto umas dores na minha cabeça..."), e vai ver o que é que lhe acontece.
 
Em Portugal nunca é despedido por causa disto e, indo os casos parar a tribunal, essas não são razões válidas de despedimento, porque os próprios juízes chegam atrasados ao trabalho por causa do trânsito, interrompem os julgamentos para irem tomar café ou fumar, e faltam frequentemente ao trabalho por doença. Este é um país católico, um país onde a realidade de Deus se exprime por convicções pessoais e íntimas, e as convicções pessoais e íntimas não são passíveis de fácil comprovação exterior.
 
Existe depois a questão da lentidão que o profissional do turismo citado pelo CGP observou em Portugal. O ritmo de vida é extraordinariamente lento, incluindo no trabalho. O emprego é visto por muitos como um meio de socialização, mais do que como um meio de realização pessoal. Os portugueses passam muito tempo no local de trabalho, mas é preciso dizer que uma boa parte dele é a socializar, não a trabalhar. Comparado com os países do norte da Europa, este é um país onde tudo se faz com calma e muitas coisas demoram uma eternidade a fazer.
 
É verdade também que, em muitas terras, os únicos negócios que se vêem abertos são negócios de comes e bebes, padarias, pastelarias, tascas, restaurantes, bares e tabernas. É verdade que os portugueses gostam de comer e perdem muito tempo a comer, mas a mesa é também um meio de socialização, que é aquilo que eles gostam acima de tudo. É claro que comer muito e demorar muito tempo a comer não ajuda nada à produtividade do país. Um dos hábitos que eu herdei de viver vários anos num país protestante é que, ainda hoje, ao almoço, apenas como uma sandes e bebo uma coca-cola. Mas é a única excepção que consigo citar, porque em todos os outros aspectos, a cultura portuguesa já se apropriou de mim  outra vez.
 
A questão do pequeno negócio está relacionada com o personalismo católico, e é uma forma de os portugueses realizarem a sua própria personalidade. Cada um quer ter um negócio, mas um negócio que seja só dele e que ele possa fazer à sua maneira, não um negócio em que ele participa com os outros e que também é dos outros. Os portugueses, regra geral, são, por isso, péssimos sócios. Médias e grandes sociedades em Portugal raramente têm sucesso, excepto quando são detidas maioritariamente por um só homem. As outras desfazem-se por querelas internas entre os sócios.
 
Finalmente, o CGP parece atribuir grande importância à questão do socialismo. Eu não atribuo. É verdade que nos últimos trinta anos Portugal caiu para o lado do socialismo, e não do liberalismo, mas isso foi porque se integrou no espaço da UE, liderado pela França e pela Alemanha onde prevalece a ideologia do socialismo democrático. A cultura portuguesa não é ideológica e, neste aspecto, o povo português é um "Maria vai com as outras". O dinheiro vinha da Alemanha, e nós deixámo-nos ser como os alemães, ou quisemos ser como os alemães. Se amanhã o dinheiro viesse dos EUA passaríamos a ser liberais como a mesma facilidade.
 
Nós não temos nem nunca tivemos ideólogos socialistas ou de outra natureza. Basta ver o que deixaram escrito Álvaro Cunhal a propósito do comunismo, ou Mário Soares, Sá Carneiro ou Cavaco Silva acerca da social-democracia ou do socialismo democrático para logo se constatar que tudo aquilo é de uma pobreza ideológica indescritível. Não é para tomar a sério.   

9 comentários:

mujahedin مجاهدين disse...

E, no entanto, as consequências do que não é para levar a sério foram, e são, muito sérias.

Eu não vejo essa questão cultural assim. A profusão de pequenos negócios em contraste com a ausência dos grandes, parece-me evidente, tem mais que ver com o que a Zazie dizia ali abaixo sobre correrem com os industriais no PREC, substituídos posteriormente pelos artistas do negócio liberal (à la Balsemão) mais em linha com o que a novus ordo seclorum pretendia aqui para a ponta da decrépita Europa. Os grandes capitalistas, esses, são como a onda do mar: vão e vêm, adaptando-se ao seu tempo. É ver os Ricardos Espírito Santo - o de ontem e o de hoje. Cada um mais que adaptado ao seu tempo e ao seu regime. Os grandes capitalistas, os financeiros, banqueiros e outros "eiros", fazem e farão sempre dinheiro em quaisquer circunstâncias.

Mas os industriais requerem mais que capital para agirem. Precisam de "confiança", ou seja, estabilidade. Montar um negócio (uma indústria, sobretudo) requer planeamento; mas para planear é preciso prever. Se não se conseguem prever impostos, legislações, políticas, torna-se impossível planear, logo, construir. Esses industriais, gente que construia e fazia, porque podia e sabia; esses sim, foram as perdas que nunca recuperámos: Champalimauds, Feteiras, etc. Nem vamos recuperar enquanto persistir o estado de bandalheira nacional juntamente com a perniciosa superintendência bruxelense. Levaremos apenas com a exploração internacional das corporações sem rosto e sem pátria.

joserui disse...

Os portugueses são péssimos sócios, companheiros de trabalho e a colaboração em geral não resulta. Qualquer associação sobrevive da carolice de um ou dois, mesmo com centenas ou milhares de sócios — um ou dois que se apropriam de facto da instituição e ou outros também não estão para encher o bandulho a ninguém...
São péssimos companheiros de trabalho para trabalhar, entenda-se..,. para os copos ao fim do dia e antaradas, são óptimos... -- JRF

Anónimo disse...

2 coisas:

1 - o CGP tem razão, depois do 25/4 criou-se uma mentalidade comunista/socialista entre os trabalhadores. A baixa instrução da população ajudou a isso. Os trabalhadores acham-se sempre vitimas dos malvados patrões. Não foi porque se integrou na UE, o problema foi uma propaganda massiva que durou vários anos depois do 25/4/74. Uma espécie de lavagem cerebral de um país inteiro, uma passagem por um manicómio socialista que durou meia década.
O socialismo é também uma cultura da inveja, em que o colega que se empenha é detestado porque faz os outros fazer má figura.
Não sei se por essa época esteve fora de portugal, mas para compreender o país faz-lhe falta esse dado, entre 1974 e 1980... vá lá até 1985 portugal esteve internado num manicómio socialista, sujeito a uma lavagem cerebral intensa e grande parte da população ainda vive presa a esses fantasmas do passado. Só em 1985/6 Cavaco silva privatiza os jornais. Até aí toda a imprensa era dominada por jornalistas socialistas, com mentalidade marxista. Uma década de loucura que ainda hoje deixa cicatrizes profundas no país.

2 - comer mal, como faz, não ajuda a produtividade. No meio está a virtude.

Camilo

Luís Lavoura disse...

Um dos hábitos que eu herdei de viver vários anos num país protestante é que, ainda hoje, ao almoço, apenas como uma sandes e bebo uma coca-cola.

Isso é um hábito americano, não é um hábito de país protestante em geral. Os alemães têm no almoço a principal refeição do dia: comem comida cozinhada e quente. Ninguém na Alemanha aceitará comer um almoço de sandes e coca-cola. Na Alemanha a refeição ligeira, frequentemente fria ou só com alguns elementos quentes, é o jantar.

Como de costume, o Pedro Arroja fala muito de países protestantes mas, infelizmente, a sua experiência deles é limitada e parcial.

Ricardo Almeida disse...
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Ricardo Almeida disse...

Um comentario a um dos vossos posts. Uma forma de elogio. :)

Aqui

http://mindsforevervoyaging.com/2013/01/09/portugal-a-sua-sociedade-os-portugueses-e-os-outros-um-comentario/

Continuacao de bons posts :)

Ricardo

marina disse...

talvez quando começarem a remunerar os trabalhadores pelo trabalho produzido e não por "anos de casa" , a coisa mude. vejo isto todos os dias : os mais velhos enostam-se , os mais novos não gostam , com razão ( é injusto ) , dado ganharem menos e pronto , está a sopa rala feita . são também incapazes de deixar seja o que for pronto para o colega , entreajuda é zero. não querem , de forma nenhuma , trabalhar mais que o outro , é estranhissimo este concurso de quem é que trabalha menos :) e suponho que o mesmo se passará nas associações : todos acham que andam a fazer , a preocuparem-se , a dar mais que o outro/os e daí a conflitos permanentes é um passo.

Pedro Sá disse...

"Os trabalhadores acham-se sempre vitimas dos malvados patrões".

Como se isso não fosse já assim muito antes do 25 de Abril.

Pedro Sá disse...
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